Grupo de Leitura: À conversa com António Goulão e Isabel Taborda

Grupo de Leitura: À conversa com António Goulão e Isabel Taborda

Este ano o Grupo de Leitura, assinala o 16º aniversário. Partilha e convívio salutar, em torno de mais de 155 obras literárias. Quinta-feira, 27 de março, realiza-se o 152º encontro do Grupo, às 15h, no Clube EDP Lisboa.

Imagem: David Cancela, António Goulão e Isabel Taborda (foto de Joaquim Simões)

No dia 26 de fevereiro, após a 151ª sessão do Grupo, tivemos oportunidade de reunir com dois dos associados que há mais tempo têm acompanhado e dinamizado o Grupo de Leitura – Isabel Taborda e António Goulão que nos falam de partilha e do salutar convívio em torno de mais de 155 obras literárias.

Este ano o Grupo de Leitura, assinala o 16º aniversário, a fomentar o gosto pela leitura, a reflexão colaborativa e o fortalecimento de laços entre os associados, demonstrando uma resiliência notável, especialmente pela regularidade ao longo destes anos, superando os constrangimentos da mudança de instalações, realizando sessões em locais provisórios, assim como as restrições do confinamento, reunindo nesse período através dos canais digitais disponíveis, tendo estas adversidades contribuído para reforçar a coesão do grupo.

Na passada quinta feira, 26 de fevereiro, após a 151ª sessão, em que foi efetuada a leitura e comentários de “A Rapariga no Comboio”, de Paula Hawkins, tivemos oportunidade de reunir com dois dos associados que há mais tempo têm acompanhado e dinamizado o Grupo de Leitura – Isabel Taborda e António Goulão, que numa conversa informal, recordaram alguns dos momentos mais marcantes destes encontros, da partilha e do salutar convívio em torno de mais de 155 obras literárias, assim como das expetativas para o futuro e onde ficou lançada a ideia para uma comemoração condigna deste aniversário, que possa envolver todos os elementos do grupo e outros associados.

Aproveitando a presença de António Goulão e da sua qualidade de animador do grupo, foi efetuada uma breve entrevista, que transcrevemos, com o testemunho direto sobre a história e motivações destes encontros, que são parte integrante da área cultural da Delegação de Lisboa do Clube EDP.

Encontro do Grupo de Leitura em janeiro de 2024

Entrevista com António Goulão

Como é que surgiu a ideia do Grupo, de quem foi a iniciativa?
Eu entrei já com o Grupo em andamento. Na altura, o animador era o António Marrachinho Soares. O Grupo começou em 2010, eu entrei em 2016. Tinha conhecimento das sessões através do e-mail que era publicitado e que continua a ser publicitado todos os meses.

No seguimento da ideia e diligências do Colega Rogério Cardoso, o Grupo de Leitura iniciou a sua atividade em novembro de 2010. António Marrachinho Soares, membro da Direção de Delegação, deu sequência à iniciativa. António Goulão entrou em 2016 e é o atual animador do Grupo.

A revista Time Out, na edição de 7 de outubro 2014, fez referência ao Grupo de Leitura do Clube
O Grupo Leitura, no Boletim Informação nº55, de setembro 2012

Um elemento do Grupo traz outra pessoa e, portanto, o grupo foi crescendo à volta disso. O Grupo expandiu-se naturalmente, digamos assim. É como diz a canção, “traz, um amigo também”. É um Grupo em que falamos à vontade. Toda a gente aceita a opinião do outro e isso fez crescer o Grupo. É fundamental, para uma empresa com a nossa dimensão, ter um Clube, que suporta atividades lúdicas, desportivas, culturais. Tudo isso é fundamental. O Clube tem uma importância muito grande. Temos tido apoio da Direção, através do David Cancela e do Filipe Samarra. Há aqui uma ligação muito grande, Clube-Direção-Grupo, que tem sido favorável, digamos, à permanência do Grupo.

De que forma se inicia a sessão? Há um elemento que faz uma introdução, lança questões para discussão, ou acontece de uma forma espontânea por qualquer participante?
É de forma espontânea. Alguém pergunta “quem quer iniciar hoje?” e a partir daí desenvolve-se uma ideia. O funcionamento do grupo é livre. Com alguma disciplina, digamos assim, mas é livre. Quer dizer, as pessoas vão juntando ideias, alguém faz uma intervenção, e acrescenta alguma coisa sobre aquilo que o outro disse.

O tema da discussão pode remeter a obra para segundo plano?
Normalmente a discussão gira à volta da obra, embora depois, também ela traga outros aspetos. Para mim, o livro é como uma viagem, que se prepara. Aqui também há a escolha do livro, a preparação da sessão. Depois é a viagem em si. A viagem é melhor se for feita em companhia. Lemos um livro em comum e trocamos a opinião e aquilo que acontece é que cada um vai sempre adicionando algo. Pode haver ideias controversas, mas saímos daqui mais ricos. Entrámos com uma opinião sobre a obra, mas com aquilo que cada um vai dizendo, ficamos com uma visão diferente daquela com que entrámos, para melhor ou para pior.

Como é o processo de escolha da obra? Os participantes trazem sugestões ou há um alinhamento mais atempado?
Ao longo do tempo, cada um vai trazendo ideias, livros. “Li isto”, “Alguém me falou que trata disto”. A Isabel mostrou uma lista… — essa é a lista dos livros, mas há uma lista de livros a ler. Ou seja, alguém sugeriu, deu as ideias daqueles livros… E, portanto, depois reunimos aqui… “ora temos esta lista, vamos escolher”. Reunimos e escolhemos os livros para os três meses seguintes, por exemplo. E depois “destes três livros que escolhemos… este é o de março, este de abril, maio..”, este é um aspeto importante, porque normalmente, os livros sugeridos para ler nos meses seguintes são adicionados à Biblioteca do Clube, para também nós, podermos contar com os livros, para além daqueles que utilizamos das bibliotecas públicas. Porque um Grupo com esta dimensão tem que ter um número de exemplares suficiente, para que cada um possa ler o livro. Como dizia a Isabel, é mais um livro a arrumar. E com as bibliotecas à nossa disposição…

A presença do autor nas sessões pode valorizar o debate e o conhecimento da obra?
A participação do autor é sempre interessante, não é? Tivemos duas sessões, uma com o José Goulão, meu primo. Foi muito interessante, ele é jornalista e escreve vários livros. Este é um romance que foi muito participado… [António consulta a lista extensa de sessões e obras]. Este foi o António Redol, este com a participação do autor, José Goulão “Um Rei na manga de Hitler”. António Redol, nosso colega, filho de Alves Redol, escritor do Neorrealismo, está representado no Museu em Vila Franca de Xira.

António Redol

Há preferência de autores?
Haverá, com certeza. Em dez anos, penso que sim. Lemos mais autores portugueses, do que estrangeiros. Normalmente, a preferência, digamos, é pela discussão — quem apresenta, quem sugeriu o livro? E depois há, de facto, algumas preferências. Nós somos sempre influenciados por isso. Nos últimos tempos, temos lido alguns dos prémios Nobel, mais recentes — Annie Ernaux, Jon Fosse, Orhan Pamuk. São referências, que buscamos sempre. Mas privilegiamos muito, se olharmos para aqui, [consultando de novo a lista], privilegiamos muito os autores portugueses. Sim, sem dúvida nenhuma.

O Grupo Leitura, no Boletim Informação nº52, de julho 2011
No Boletim Informação nº59, de dezembro 2013, assinalam-se os 3 anos do Grupo

E preferência de género literário?
Normalmente romance. Poesia, lemos, no Dia da Poesia, 21 de março…. Cada um escolhe um poema e é o próprio que declama, o poema em voz alta. 

Também se lê em voz alta?
Na poesia, sim, na prosa, não. Aquilo que é feito muitas vezes é ir buscar alguma coisa que deu mais significado ao texto. Uma frase, citação. Não é propriamente o ler em voz alta, é uma passagem específica, para argumentar uma determinada ideia. Isso sim.

Nos encontros, há chá e biscoitos, dos próprios, não é?
Era mais antigamente, agora não tanto. Os encontros eram às 18h, no final do dia do trabalho. Partilhávamos tempo livre e partilhávamos também mais alguma coisa que se trazia de casa. Atualmente, as sessões são às 15h30. Durante muito tempo era um costume, um costume mantido. Cada um trazia os seus contributos… Outro tema importante é a resistência do grupo, que continuou sempre a funcionar. Primeiro, deixou de haver a Sede que tínhamos anteriormente e procurámos sítios onde pudéssemos reunir. Depois houve uma Sede provisória. Também nos reunimos na sede provisória. Depois veio o confinamento, deixámos de ter um sítio onde reunir.

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Mas fizeram sessões do Grupo de Leitura online…
Sim, garantimos as sessões. Durante dois anos, fizemos as sessões por Zoom e depois, quando houve estas novas instalações, passámos para aqui e temos reunido regularmente. De facto, a vontade de ler é tanta… ler e partilhar a leitura e tudo à volta disso. Mantivemos sempre um Grupo ativo. O ato da leitura é normalmente individual e assim passa a ser partilhado, de grupo. Sim. Não é só sobre uma obra em particular, porque entre nós, partilhamos os livros que vamos lendo fora do Grupo. A ideia que tivemos sobre esse livro, qual é o nosso ponto de vista a cerca de cada um dos livros.

O que mais destaca no Grupo de Leitura?
As coisas mais importantes que já referi. É de facto, a importância do Clube, de existir um Clube com estas características. O livro para mim, como uma viagem, portanto, tem o antes, durante e o depois. E a partilha, o prazer da leitura. É isso que nos mantém. Mas num grupo, diverso há gostos diferentes… Sim por vezes. Nem sempre saímos daqui todos de acordo, não é? Nem é esse o propósito sequer, mas sempre saímos mais ricos, mesmo com aquilo que não nos agrada, ou aquilo com que não concordamos, são pontos de vista diferentes, que são partilhados. O à vontade, com que cada um expõe seu ponto de vista, independentemente de se concordar ou não — é um dos pontos fortes do Grupo. Escolhemos 3 livros para os próximos 3 meses. Depois, em cada mês é feita uma divulgação do livro que vai ser lido naquele mês, por e-mail, para os associados. Já me têm dito alguns associados “eu não vou ao Grupo, mas leio o livro”, serve como uma sugestão de leitura. Damos nota breve do que foi mais relevante na sessão anterior e divulgamos a próxima sessão do Grupo.

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